"Um breve conto de Pedro, por Alice"

Eu gostava do jeito que Alice era, dos cabelos lisos e pretos como piche, da pele alva, das bochechas rosadas, do sorriso elusivo que contagiava. Gostava daquela sua presença tímida e despojante, da sua voz mansa e de tom suave, apesar de nunca ter falado com ela. Ouvia poucas vezes quando ela indagava algo ao professor na sala de aula. Ela era pensativa, de poucos amigos. Pra mim, tinha a essência mais límpida de uma menina. Na verdade, eu sempre gostei de ficar olhando pra ela. Me perdia até um pouco, mas ela tinha algo diferente, ela era um pouco misteriosa. Tive vontade de ir e sentar ao lado dela e conversar, quando via ela sozinha debaixo da árvore no pátio do colégio, chegava a ficar frio de vontade chegar mais perto. Eu ia, mas ficava um pouco distante, era tímido e morria de medo do que ela poderia dizer - ela talvez iria dizer que eu era menino bobo e sem papo algum, ou me deixar falando sozinho, como um idiota. E ali não teria só uma árvore, eu também estaria ali plantado. Na hora da saída do colégio ela saía apressada passando entre todos. Uma vez resolvi segui-lá discretamente pra ver de onde vinha essa garota apressada. Ela com uma cara um pouco assustada, ajeitando sua mochila azul nas costas, e eu indo um pouco atrás sem que ela me percebesse. Ela atravessou a rua, passou entre a praça, entrou na lanchonete da esquina, logo atravessei a rua rapidamente também, fiquei atrás de um carro, eu podia ver lá dentro, e passando alguns minutos ela saiu com um avental e foi retirando das mesas copos, talheres e garfos - ela trabalhava nessa lanchonete. Era isso o porque da pressa de Alice, e  resolvi ir pra casa, eu sempre querendo desvendar um pouco dela, da menina do olhar sublime, de poucos amigos. Ela não era de se expor, sorria somente mesmo pra retribuir à alguém, e era quando eu mais gostava de ficar olhando. Minha timidez tão estranha impedia que eu fosse até ela e me deixava um pouco perdido. Ela já vinha percebendo alguns dos meus olhares, ela olhava um pouco discreta com a cabeça baixa sobre a carteira. No trabalho em dupla da professora Cecília eu fui escolhido para fazer com ela, foi aí que Alice conversou comigo, pela primeira vez. Falamos somente do trabalho. Me senti um pouco bobo, e me lembro que até deixei cair o estojo com seus lápis no chão, ela deu um sorriso de leve e quando abaixei para pegar do chão e deixei sobre sua mesa pedindo desculpas rapidamente sem pensar eu perguntei aonde ela morava, se fazia tempo que estava na cidade - ela me respondeu em um tom baixo, que morava logo alí, próximo ao antigo cinema da cidade. Me soltei um pouco, mas me perdia um pouco nas palavras. Ela disse com aquela voz mansa que tínhamos que terminar o trabalho e no final da aula poderíamos conversar. Concordei dizendo um sim e ela retribuíndo com o mesmo sorriso leve e breve. Assim que bateu o sinal de saída do colégio enquanto ela guardava seus materiais dentro da bolsa, eu ali do lado, espera-a sem saber o que falar. Ela pediu desculpas e disse que precisava ir embora, e me pediu pra ir até a pracinha perto da casa dela, às cinco da tarde. Eu aceitei rapidamente, e ela foi, me acenou um thau, com um sorriso leve outra vez. E eu com um sorriso mais que estampado retribuí. Fui pra casa contente com o convite de Alice, ela não era tão tímida como pensei, ela sabia conversar, e não ficava boba e sem assunto como eu. E minha ansiedade era contada no relógio. Pra chegar às cinco da tarde era uma eternidade, me lembro que coloquei a minha melhor camiseta, e meus mais belos pares de tênis, usei perfume suave, e despojei no meu cabelo um pouco arrepiado. Estive pronto às 16:25 daquele dia, saí apressado, não queria deixar Alice esperando, e muito menos que ela ouvesse a pensar que eu teria esquecido. Cheguei à pracinha, escolhi o banco mais próximo à rua dela, faltava somente dois minutos pro horário marcado. Esperando eu olhava no relógio em minutos, e ja tinha se passado vinte e dois e nada de Alice chegar. Não desisti de esperar, mas já tinha passado inúmeras coisas na minha cabeça, e alí já estava por volta das 18:00 horas. Resolvi ir embora, até porque ela não iria se atrasar tanto assim - pensei comigo. Quando já estava pra atravessar à rua, ouvi uma voz me chamando, um alguém que corria, cansada de chamar. Era Alice, com um vestido de flores vermelhas, estava linda. Ela pediu desculpas, disse que estava trabalhando, e a lanchonete estava cheia de clientes, por isso atrasou. Eu disse que não importava. Voltamos, sentamos naquele banco novamente, ela estava com um rosto cansado, mas ainda estava com aquela mesma sensibilidade de falar e com aquele sorriso leve do qual eu tanto apreciava. Ela me contou um pouco sobre ela, falou do seu trabalho na lanchonete, ela trabalha pra ajudar a mãe em casa. O pai de Alice morreu quando ela ainda era pequena, deixando ela, seus quatro irmãos, e sua mãe. Contei também sobre mim. Rimos, conversávamos, trocávamos intimidades das nossas vidas, e por esse pouco tempo comecei a conhecer Alice, e as horas voaram e tivemos que nos despedir. Ela me abraçou, sorriu pra mim e me deu um beijo carinhoso no rosto. Confesso que fiquei bobo e perdido mais uma vez. Desde esse dia pra cá, Alice me via como um amigo fiel e companheiro. Passei a conhecer sua mãe e ela meus pais. Tomávamos sorvete quase todo fim da tarde e conversávamos sempre naquele mesmo banco da praça, e ficávamos juntos debaixo da árvore no intervalo do colégio. Passado três anos estávamos na mesma sala, no terceiro ano do ensino médio e assim que Alice terminou o ano letivo mudou para a cidade grande com sua família, e eu ainda fiquei por aqui. Foi difícil ficar longe dela, passei a reconhecer Alice como uma irmã, e ela também me considerava assim. Ela era linda e meu coração acelerava um pouco por ela, mas passei a amá-la de um outro jeito, diferente por sinal. De fato reconheci que o mistério de Alice era de um ombro amigo, de alguém que tomasse o tempo dela em uma praça no fim da tarde, ao compartilhar um sorriso, e ao jogar conversa fora de dois adolescentes debaixo da árvore no pátio do colégio. Hoje temos alguns contatos, ela está bem, casou com um médico, e está pra formar em Direito em uma faculdade federal. Seus outros irmãos também vive bem, e eu estou fazendo meu último ano de medicina, e por falta de tempo ainda não tive oportunidade de ir visitá-la. Sinto saudade de tudo que fazíamos juntos e das tardes de sorvete ao lado dela, e também da falta que faz uma amiga verdadeira, assim como ela sempre foi. Me lembro bem de todos os detalhes de que fazia de Alice uma linda menina.

2 comentários:

Anônimo disse...

adorei o texto ana!

Aline Rodrigues disse...

Eu sempre vou amar este conto, meu preferido!

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